disse Tyrion.
- Ele não a receberá de bom grado.
- Mesmo que o rapaz sobreviva, será um aleijado. Pior que um
aleijado. Uma coisa grotesca. Eu preferiria uma morte boa e
limpa.
Tyrion respondeu com um encolher de ombros que acentuou o
modo como eram torcidos.
- Falando em nome das coisas grotescas - disse -, permito-me
discordar. A morte é terrivelmente final, ao passo que a vida
está cheia de possibilidades.
Jaime sorriu.
- Você é um duendezinho perverso, não é?
- Ah, sim - admitiu Tyrion. - Espero que o rapaz acorde. E
vou ficar muito interessado em ouvir o que ele pode ter a
dizer.
O sorriso do irmão coagulou como leite azedo.
- Tyrion, meu querido irmão - disse ele em tom sombrio -, há
momentos em que você me dá motivo para duvidar de que
lado esteja.
A boca de Tyrion estava cheia de pão e de peixe. Bebeu um
trago da forte cerveja preta para empurrar tudo para baixo e
dirigiu a Jaime um sorriso de lobo.
- Ora, Jaime, meu querido irmão - disse -, assim você me
magoa. Bem sabe como amo minha família.

Jon

Jon subiu os degraus devagar, tentando não pensar que
aquela podia ser a última vez. Fantasma caminhava em
silêncio ao seu lado. Lá fora, a neve rodopiava através dos
portões do rasteio, e o pátio era um lugar de barulho e caos,
mas dentro das espessas paredes de pedra ainda havia calor e
silêncio. Muito silêncio para o gosto de Jon.
Chegou ao patamar e ficou ali por um longo momento, com
medo. Fantasma encostou o focinho em sua mão e Jon
conseguiu coragem por causa do contato. Endireitou-se e
entrou no quarto.
A Senhora Stark estava lá, junto à cama. Estivera ali, noite e
dia, ao longo de quase quinze dias. Nem por um momento
abandonara a cabeceira de Bran. Ordenara que as refeições
lhe fossem trazidas, e também os banhos e uma pequena
cama dura para dormir, embora se dissesse que quase não
tinha dormido. Ela própria o alimentava com a mistura de
mel, água e ervas que lhe sustentava a vida. Nem uma vez
deixara o quarto. Por isso Jon mantivera-se afastado.
Mas agora não havia mais tempo.
Parou à porta por um momento, com medo de falar, de se
aproximar. A janela estava aberta, lá embaixo um lobo
uivava. Fantasma o ouviu e ergueu a cabeça.
A Senhora Stark olhou para ele. Por um momento não
pareceu reconhecê-lo. Por fim, pestanejou.
- O que você está fazendo aqui? - perguntou numa voz
estranhamente monótona e despida de emoção.
- Vim ver Bran - Jon respondeu. - Dizer-lhe adeus,
O rosto dela não se alterou. Seus longos cabelos ruivos
estavam opacos e emaranhados. Parera ter envelhecido vinte
anos.
- Acabou de dizer. Agora, vá embora.
Parte dele só desejava fugir, mas sabia que se o fizesse podia
nunca mais ver Bran. Deu um nervoso passo para dentro do
quarto.
- Por favor - ele pediu.
Algo frio se moveu nos olhos dela.
- Eu disse para sair. Não o queremos aqui.
Tempos atrás, aquilo o teria posto a correr, até talvez o
tivesse feito chorar. Mas agora só o neixou zangado. Seria em
breve um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite, e
enfrentaria peri-ps maiores que Catelyn Tully Stark.
- Ele é meu irmão - disse.
- Terei de chamar os guardas?
- Chame-os - disse Jon, em desafio. - Não pode me impedir de
vê-lo - atravessou o quarto, mantendo a cama entre ele e a
Senhora Stark, e olhou para Bran.
Ela segurava uma das mãos do filho. Parecia uma garra. Este
não era o Bran de que Jon se lembrava. A carne tinha
desaparecido toda. A pele esticava-se, apertada, sobre ossos
espetados. Por baixo do cobertor, as pernas dobravam-se de
uma maneira que o enchia de náusea. Os olhos estavam
profundamente afundados em poços negros; abertos, mas
nada viam. A queda de algum modo o encolhera. Quase
parecia uma folha, como se o primeiro vento forte o fosse
levar para a tumba.
E, no entanto, sob a frágil gaiola daquelas costelas
estilhaçadas, o peito subia e descia a cada respiração pouco
profunda.
- Bran - disse Jon -, lamento não ter vindo antes. Tive medo -
conseguia sentir as lágrimas rolarem pelo rosto. Já não se
importava. - Não morra, Bran, Por favor. Estamos todos à
espera que você acorde. Robb e eu, e as meninas, todos...
A Senhora Stark observava. Não tinha gritado pelos guardas,
e Jon tomou o fato por aceitação. Fora da janela, o lobo
gigante voltou a uivar. O lobo a que Bran não tivera tempo
de pôr um nome.
- Tenho agora de ir embora - disse Jon. - Tio Benjen está à
espera. Vou para o Norte, para a Muralha. Temos de partir
hoje, antes da chegada das neves - lembrou-se de como Bran
estivera excitado com a perspectiva da viagem. O
pensamento de deixá-lo para trás assim era mais do que
conseguia suportar. Jon limpou as lágrimas, inclinou-se e deu
um beijo ligeiro nos lábios do irmão.
- Eu quis que ele ficasse aqui comigo - disse a Senhora Stark
em voz baixa.
Jon a observou, desconfiado. Ela nem sequer o olhava. Não
estava falando para ele, mas para uma parte de si, era como
se ele nem estivesse no quarto.
- Rezei para que isso acontecesse - disse ela em voz baça. - Ele
era o meu rapazinho especial. Fui até o septo e rezei sete 